quarta-feira, janeiro 20

Machu Picchu


Pegamos o táxi 6:30 da manhã. Chegamos a tempo à estação de Poroy, um distrito de Cusco a 30 minutos do centro. Nos deparamos com um grupo de brasileiros. O incrível é que, se não abrir a boca, dificilmente saberão de onde você é, devido às tantas nacionalidades que transitam por essa região.




Embarcamos no trem, na classe mais econômica (backpacker - US$ 48 por pessoa). Por isso, mais difícil de se acomodar nas poltronas em pares de frente umas para as outras. Sentamos na frente de duas senhoras. Não sei de onde mas falavam espanhol. Estavam animadas. Muitas fotos através dos vidros mas muito cochilo também, como todos nós. O trem parte muito cedo.

O balanço enjoa mas também embala o sono. hoje foi o dia de Fernando passar mal. Já saiu de casa com o intestino ruim e o balanço do trem aplicou sobre ele o seu pior efeito. Gatorade (quente) nele. Mas a vista o distraía um pouco. A força do rio sagrado dos incas, Urubamba, combinado ao grande vale de pedras gigantes grudava nossos olhos do lado de fora da janela. Quatro horas de plantações e natureza selvagem sempre às margens do Urubamba.


Chegamos à estação de Aguas Calientes recepcionados pela chuva. Não tão forte mas obastante para comprarmos capas de chuva de plástico com as vendedoras que nos aguardavam. Passamos por um mercado de produtos artesanais e chegamos ao centro da cidade, também conhecida como Machu Picchu Pueblo.


Fomos atrás de um albergue para poder deixar nossas coisas e garantir a estada para a noite. Os primeiros escolhidos já não tinham mais vaga. Encontramos um atrás de um restaurante, o Jairito (25 soles por pessoa), na principal rua do povoado. Um quarto bem simples, com uma cama de casal, um banheiro e sem TV.

Fernando quis deitar um pouco pois a viagem foi terrível para ele. Nossas pernas vieram bem encolhidas e isso fez com que ele ficasse com dor no corpo muito forte, somado ao mal estar do balanço do trem. Acabamos dormindo umas duas horas até resolvermos conhecer Machu Picchu.


A caminhada do povoado até as ruínas sagradas leva 90 minutos. Como Fernando não podia fazer esse esforço, optamos pelo ônibus que leva os turistas até lá (US$7 por pessoa só ida). Algumas curvas leves e outras 92 muito fechadas depois, chegamos à entrada do parque. Havíamos comprado o caro ticket de 126 soles por pessoa ainda no povoado. Fomos abordados por Maria Aparecida, guia local, para que nos mostrasse a cidade Inca por 100 soles. Um pouco caro mas sem as explicações acabamos perdendo muito do encanto do lugar.

Andamos um pouco até chegar às primeiras "terraças", áreas planas que os Incas utilizavam para a agricultura. Em um ponto mais alto fica o cemitério, onde foram encontradas várias múmias em posição fetal. Eles acreditavam que a pessoa renascia em outra vida e precisava estar na posição de nascimento quando morressem.


Apenas a uns 20 passos já víamos a paisagem clásssica de Machu Picchu, com as montanhas que formam um rosto de perfil atrás da cidade intocada pelos espanhóis. Apenas por eles pois Hiran Bingham, norte-americano que redescobriu o lugar em 1911, levou todas as peças encontradas no santuário e proibiu que universidades do Peru tivessem acesso ao material e ao local enquanto fazia seus estudos com especialistas dos EUA. Por causa disso, muitas interpretações de Bingham sobre as construções eram erradas. Uma visão de fora, de quem não conhecia a cultura Inca.


Segundo a nossa guia, essas peças encontradas foram levadas em baús para os EUA, todas misturadas, não sendo possível reconstituir o cenário em que se encontravam. Mas isso não afetou o encanto da cidade de rochas compostas por 15 % de quartzo branco. Acredita-se que a energia do lugar também seja fruto desta preciosidade.

E, apesar de estar infestado de turistas, é impossível não sentir uma enorme paz e acreditar no imenso poder da natureza. Como os Incas cultuavam os elementos naturais, tudo é referenciado a eles. Acreditavam nos três níveis de existência: primeiro a mãe terra (Pachamama), segundo o nível em que as pessoas vivem e terceiro o nível superior, onde as pessoas estarão depois de mortas junto ao Deus Sol. Estes níveis também eram representados por animais: para a terra, a serpente; a vida dos homens, o puma; e o nível superior era simbolizado pelo condor.
As cerimônias de mumificação dos mortos eram feitas em uma pedra em formato de condor, pois o povo acreditava que ele levava as almas para o nível superior. Por causa desses três níveis, o número 3 era considerado sagrado pelo povo Inca. Todas as construções com janelas possuiam três exemplares. Até mesmo o templo do Sol tem três "ventanas".


Interessante observar a diferença entre as construções da nobreza e do povo. Os mais ricos tinham suas moradias feitas em pedras bem polidas e com encaixe perfeito, como era também a casa do imperador, o templo do Sol e outras construções destinadas a rituais sagrados.

A cada caminhada descobríamos mais segredos, víamos mais um ângulo de Machu Picchu e seu entorno, tão lindo quanto o santuário. O rio Urubamba compunha a paisagem de forma silenciosa. Apesar de muito forte, lá se cima era pequeno e frágil comparado à imensidão das montanhas a seu redor. Realmente um lugar para cultuar a natureza.

Os Incas sabiam mesmo retribuir à natureza todos os presentes diários que ela os dava. E eles o utilizavam mesmo. Faziam previsões olhando as estrelas e viam no sol as temporadas de plantio e colheita.

Não paramos de tirar fotos em nenhum momento deste lugar cheio de cultura, transbordando história. Acabamos nosso tour bem próximo ao último horário do ônibus para voltar a Aguas Calientes. O tempo abriu e não pude deixar de voltar ao alto do templo para tirar uma foto com as ruínas ao sol. Subi rápido demais e fiquei sem fôlego. Sem muita coisa no estômago também não podia esperar muito. Mas valeu a pena.



Fernando não subiu e me esperava no ponto do ônibus. Saí de lá querendo voltar para sentir um pouco mais da energia, apreciar a paisagem maravilhosa. Descemos de ônibus. Fernando ainda não se sentia bem e a caminhada duraria até a noite. Chegamos ao povoado e ele estava pior. Compramos água e um biscoito doce sem recheio. Saímos às pressas e já no albergue ele queimava em febre.


Fui duas vezes à farmácia buscar soro e remédio para baixar a febre. No aperto, o espanhol sai (risos). Me assustei com os dois compromidos de 500 mg cada indicados a cada 6 horas. Paracetamol em uma dose muito forte. Antibióticos tem 1g de composição. Mas sachês comprados na farmácia a 1 sole é assustador. Tive medo de Fernando passar mal com a dose. Ainda bem que nada aconteceu e ele foi para o banho depois senti a água quente.

Ele entrou e, alguns minutos depois, a água quente acabou. Chamei o rapaz do albergue. "No hay agua caliente". O cara entrou no banheiro com Fernando todo ensaboado para verificar. Depois de uns 10 minutos, o garoto disse que o andar debaixo nos roubava toda a água quente. Uns 5 minutos depois de Fernando estar no frio e com sabão em tudo, a vizinha deixou ele tomar banho quente porque a agua fria não era fria. Era geladíssima. Consegui aproveitar a nossa sorte de água quente, mesmo com o chuveiro acabando a água e voltando. Fomos dormir.

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