domingo, janeiro 24

O puma de pedra

De pé bem cedo e, ainda assim, atrasados. Engolimos o café da manhã para pegar a van 6:45 na porta do albergue. Ela nos levou para o porto para nosso passeio pelo lago Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, a 3870 m acima do nível do mar. Excursão de um dia inteiro.

Caminhamos até o cais e pulamos de barco em barco até chegar à nossa lancha Jumbo. Nos acomodamos e algumas pessoas atrasaram nossa saída. Nada que nos fizesse esperar demais. O tempo estava nublado. Fomos em direção à nossa primeira parada: a comunidade dos Uros.


Eles constroem suas casas, feitas da planta totora, em cima das raízes, formando ilhas flutuantes. Corredores da planta abriam caminho para a comunidade com mais de 50 ilhas. Fomos recepcionados pelas mulheres da ilha "Corazon Del Lago", com 30 habitantes.

Sentamos em bancos de totora para ouvir a explicação do guia. Ele e o presidente da ilha mostraram como são feitas as construções. O povo utiliza as raízes da totora para flutuar no lago e a planta é colocada por cima, formando o chão do lugar.

Os quartos e a cozinha para a época de chuvas também são montadas com a planta. O barco que leva as crianças para a escola em outra ilha flutuante também é como um artesanato. Na época de seca, a cozinha ao ar livre com um fogão de barro, utiliza a totora como combustível. A população se alimenta basicamente de peixe. Comem também um tipo diferente de frango criado por eles.

A sobrevivência do povo se deve muito ao turismo, com a venda de artesanato feito tanto por homens como pelas mulheres. Eles fazem os barquinhos para cordões e móbiles. Elas bordam. Tiram seu sustento daí e não há muita negociação.

Olhamos as casas por dentro, subimos na torre de comunicação entre os presidentes das ilhas para ver tudo de cima. É muito estranho pisar em um chão fofo acostumada à terra firme. Pagamos 20 soles para andar no barco de totora, inacreditavelmente seguro.


Um casal nos conduziu até a outra ilha onde nossa lancha nos aguardava. Há um rodízio com as visitas dos turistas para que todas as famílias tenham a oportunidade de vender seus artesanatos.

Durante a viagem, o guia Estevan nos contava as características do lugar. Muita informação. A ilha flutuante que visitamos tem 14 metros de lago embaixo dela. O Titicaca pode atingir 300 metros de profundidade. Com mais de 8 mil metros de extensão, os peruanos defendem que 60% do lago pertence ao Peru e 40% a Bolívia. Os bolivianos já dizem o contrário. Mas, olhando os limites no mapa, dou razão aos peruanos.

O nome do lago, de origem Quechua (língua inca ainda popular), significa "Puma de Pedra" (Titi - puma; kaka - pedra). Ele foi batizado assim por causa das formações rochosas em volta do lago. Navegamos mais e o tempo foi mudando. Do céu cinza e água sem graça não sobrou mais nada. O sol revelou um azul incrível. O frio era o mesmo mas a paisagem nos remetia a outro lugar. A imensidão azul não parecia como um lago. A única referência é que ainda estávamos na bacia de Puno.


Passadas as penínsulas, começamos a ver nosso destino no lago, a ilha Taquile, duas horas e meia depois da comunidade dos Uros. O sol estava forte mas, ainda assim, o vento era gelado. A paisagem é incrível. Impossível parar de olhar.

Chegamos ao cais da ilha. Dúvida cruel se levava o casaco ou não. Decidi pelo mais leve por causa do sol. A recomendação dentro do barco era se lambuzar com filtro solar. Esquecemos no albergue. Cruzei os dedos para não me queimar mesmo sabendo que isso seria impossível.

Caminhamos para subir até a casa da família onde almoçaríamos. Subimos muito e, apesar da vista parecer com o mar, o ar faltava e nos lembrava da altitude. Cansativo mas lindo. A cada passo não acreditava no que via. Aquela água toda, com uma linha lá no horizonte, era um lago.


Uma primeira parada para ser apresentada a uma planta local. Um galho pequeno com folhas pequenas. O suficiente para esfregar na mão e revelar o aroma delicioso parecido com hortelã. Ajuda no enjôo e seu chá na digestão. Nesse ponto, já víamos uma parte da ilha com a imensidão de água azul.


Na casa da família, a mesa tinha a vista que me desconcentrava. Ainda no barco, fomos apresentados às vestimentas locais. Gorros totalmente vermelhos caracterizava os homens casados. Os bicolores, com branco, mostrava os solteiros. As mulheres, sempre com mantos negros, se diferenciavam pelos pompons de lã pregados às vestimentas. Os mais cheios são para solteiras enquanto os mais magrinhos ficam para as casadas. As crianças usam gorrinhos com babados e as autoridades vestem coloridos. Mulheres tem flores nas sandálias de mesmo modelos dos homens.


No quintal da casa, já sabíamos identificar tudo. Uma dança típica nos distraiu enquanto esperávamos o almoço. Truta ou Omelete. Fernando ficou com o peixe e eu com os ovos. Tudo muito agradável e gostoso. Sopa de quinua de entrada, um grão muito encontrado no Peru. Um alemão, que falava um fluente espanhol, incrementava com a pimenta muito ardida. E ria. "Pica-pica no es problema" (risos). Um alemão falando espanhol e eu com a língua travada. Que burra. Falo um idioma tão próximo e fico de bobeira com isso.

As bebidas de sempre: Inca Kola, Coca Cola ou água. Sempre conservadas ao tempo. Provei o chá da folhinha com cheiro de hortelã na esperança de que o almoço não pesasse como das outras vezes.

O cais da volta ficava em outro lado da ilha. Fomos até a praça principal, onde ficam algumas lojinhas de artesanato muito caro e crianças insistentes em vender suas pulserinhas. Uns 30 minutos para tirar fotos. Dá vontade de continuar ali por muito mais tempo.


"Grupo Jumbo", gritava o guia para voltarmos à lancha. O caminho dessa vez era maior e deu ótimas oportunidades para tirar fotos. Fernando permaneceu todo o tempo com a garrafa de gatorade que havíamos levado. Ele quis levar um pouco da água cristalina do lago para o avô superticioso curar a artrose.

Embarcamos e a navegação agora era sem paradas. Cochilei um pouco mesmo com a marola batendo. Chegando mais próximo de Puno, o tempo fechou e a chuva era muito forte. Um rapaz limpava o parabrisa para que o piloto conseguisse enxergar o trajeto.

Desembarcamos ainda com chuva fraca. A van nos aguardava para o retorno ao albergue. As ruas um pouco alagadas mas nada que afetasse a cidade. Precisávamos arrumar a mala para viajar às nove da noite para Arequipa.

Banho tomado, presentes organizados na bagagem e roupa de frio para suportar o vento da rua. A moça do albergue nos deu dicas para passeios e hospedagem na cidade de destino. A hesitação em sua voz demonstrava o que estava por vir em nossa viagem. Perguntei se a "Sur Oriente" era uma boa empresa de ônibus. Ela nos chamou um táxi e partimos.

Na rodoviária, as nossas malas foram embarcadas sem nenhum comprovante. O ônibus era antigo e não tinha luz. O rapaz que assessorava os passageiros andava com uma lanterna para poder enxergar seus passos. Compramos tickets para as poltronas mais confortáveis na parte de baixo.

Uma moça transportava peixe junto com ela no banco atrás do nosso. Nosso setor virou uma peixaria. O banheiro era impraticável. Sujaram todo ele e a empresa não o limpou. O cheiro se uniu ao do peixe que era emanado a cada vez que a moça se mexia. O ar quente foi ligado, nos sufocando ainda mais. Para arrematar, um passageiro, ainda sentado, roncava muito alto. Seis horas nesse ambiente. A pior viagem.

Às 3 horas da manhã, saí do ônibus aliviada mas de olho nas bagagens para ninguém pegar a minha. Queria sair de qualquer maneira dali. Sumir de perto daquele ônibus. Pegamos um táxi. Tentamos encontrar o primeiro hotel indicado pela moça de Puno, o Arequipa Center. Sem vagas. Em La Posada del Fraile, colada na principal praça da cidade, conseguimos um quarto.

Lindo hotel, muito organizado e, o mais gostoso depois de todo o estresse, com calefação. Quarto quentinho, acarpetado e água quente no chuveiro. Os muitos canais da TV nem fizeram tanto sucesso por causa do sono. Banho quente e cama para esquecer a viagem cansativa.

sábado, janeiro 23

A bagunça de Puno

Não acordamos muito cedo. Ainda assim tomamos café. Suco de laranja, torrada, pão, leite (daquele bem grossinho e doce), manteiga e geleia de morango. Partimos para conhecer a cidade. Muito frio MESMO do lado de fora.

Pegamos um caminho em grande desordem. E o mais incrível é que tudo funciona harmonicamente do jeito deles. Ruas asfaltadas mescladas com outras sem calçamento e ovelhas amarradas. Carros dividem espaço com os 5 mil triciclos de tração humana mais as moto-táxi com carroceria para dois passageiros. No meio disso tudo, as feiras com produtos diversos: materiais para higiene pessoal, para limpeza de roupas, muita comida em pacotes de 20 kg, animais conservados em cima das bancas apenas e muita gelatina. Em outra parte do bairro, o contrabando: TV, DVD, celulares, CD's piratas. Tudo isso durante o dia invadindo as ruas.

Andando um pouco mais encontramos uma rua bem bonita da cidade. É a parte dedicada ao turismo. Muitos restaurantes e lojas de lembranças. Aparentemente fechada para carros mas as motos não deixam de cortar caminho por ela.

Depois de caminhar bastante resolvemos almoçar, ainda com medo da comida. Pedimos uma Caesar Salad e frango com purê para nós dois. Comer muito nunca mais. Descobrimos uma agência de viagens embaixo do restaurante e compramos a passagem para Arequipa, para amanhã à noite. Enquanto emitiam nosso bilhete fomos ao porto do lago Titicaca visitar as lojas de artesanato.

No caminho presenciamos uma cerimônia bem estranha para nós. Um velório com músicos vestidos ao estilo mexicano. A moça cantava, acompanhada de seus amigos de sombreiro, enquanto a família recebia os cumprimentos. Uma forma bem mais tranquila de dizer adeus.

As lojas no porto eram intermináveis. Presentes comprados e uma moto-táxi nos levou de volta à agência. Experiência divertida e barulhenta. Impressionante o motor de 125 cc aguentar tanto peso. Chegamos rápido e pagamos barato, 3 soles.

Fernando ainda não se sentia bem. Precisávamos ir ao albergue após resgatar as passagens. Ele ficou no albergue e eu saí para comprar algo para comer e beber. Amanhã é dia de sair bem cedo para visitar o lago e passar todo o dia fora.

Descobri que estávamos bem perto da rua comercial e do mercado municipal mas não conseguia encontrar um mercado para comprar biscoitos e bebidas. Consegui achar uma loja de lingerie e reforcei meu estoque desfalcado, acabando com o dinheiro levado para a rua. Tinha que voltar ao albergue. Me perdi. Perguntei a algumas pessoas sobre o nome da rua e um rapaz que passava me ajudou a me encontrar.

Voltei à praça principal através das indicações estranhas do cara do albergue. Peruanos, definitivamente, não sabem dar indicações muito bem. Mesmo assim, consegui achar um mercado. Vendia frangos mas também tinha o que eu queria.

Olhei para o grande freezer e fiquei feliz de poder comprar Gatorade gelado dessa vez. Grande engano. Estava desligado. Funcionava como um armário como em praticamente todos os lugares. A luz deve ser muito cara. De volta ao albergue, tomei banho quente e fui dormir.

sexta-feira, janeiro 22

Muita coisa até Puno

Ainda eram 6 da manhã mas acordei. Fernando havia passado mal durante toda a noite. Fui até a farmácia para comprar soro e remédios. Consegui me comunicar mas a moça não tinha troco para a minha nota de 100 soles. As casas de câmbio não facilitam mesmo as coisas. Não tinha nada aberto. Me lembrei do cartão de crédito. Volto ao albergue e Fernando me diz que havia colocado dentro da carteira que estava comigo.

Volto. A máquina do Visa quebrada. Finalmente, ela aceitou o meu dinheiro. Cheguei ao albergue e ela havia me dado algo parecido com gatorade (Electrolight). Retornei e troquei pela "botilla" certa. Chego no albaregue e um táxi já me espera na porta, com Fernando, o agente de viagens e o motorista às 7:05 da manhã. Chegamos ao "terminal" do ônibus em frente a uma agência de viagens.

Nossos assentos estavam cercados de brasileiros. Manuel se apresentou como nosso guia. bilingue (espanhol e inglês) durante toda a viagem. Ele começou falando sobre nossa primeira parada em Andahuailillas, onde fica a igreja considerada a capela Sistina Andina, além de ser a primeira igreja da América Latina.

As fotos dentro da igreja eram proibidas. A igreja, em homenagem aos apóstolos Pedro e Paulo, contava em pinturas a história das mortes deles bem próximo ao altar. Neste, os espanhóis colocaram uma peça simbolizando o sol como uma forma de catequizar o povo andino que tinha como Deus o astro mais poderoso.

O teto, atualmente restaurado, nos dava a impressão de um tapete com várias "dobras", como se estivesse mal esticado, mas é todo feito em madeira. A presença de árabes na região ficou registrada na presença de uma estrela de oito pontas fixada também no teto.

A entrada da igreja também possui pinturas muito bonitas representando a chegada ao céu (tarefa difícil) e a descida ao inferno , com um caminho cheio de flores. A capela tem dois órgãos alemães, um deles é o mais antigo da América. Incrível ver tanta história em um povoado tão pequeno.

Próxima atração era o Conjunto Arqueológico de Raqchi (entrada de 10 soles, já incluída no pacote). Lá está o maior santuário INca: 92m de extensão, 26 de largura e 14 de altura. Grande parte foi destruída, provavelmente, em um incêndio provocado pelos espanhóis que queriam destruir vestígios dos cultos andinos. Este templo foi construído com base de pedra sobre pedra e as paredes e colunas (única construção Inca com a presença delas) de outro material.


Próximo ao santuárioficavam as casa, construções pedra sobre pedra a prova de terremotos (paredes com 9 a 13 graus de inclinação). Do lado de fora do Conjunto, muitas bancas de artesãs com seus produtos de cerâmica a preços bem acessíveis, mais baixos que Cusco. Alguns minutos para compras e idas ao banheiro e partimos para Sicuani. Almoço no restaurante "El Felipon". Self-service com comida à vontade. Comemos bem pouco já que Fernando estava a base de doro todo o tempo e eu temia a altidude ainda a enfrentar.


La Raya, a 4.338 metros de altitude, á a divisa entre Cusco e Puno. A nossa próxima parada. O tempo muito fechado e a chuva só possibilitaram umas fotos da estrada mesmo. Os picos nevados eram bem difíceis de ver.

Já a 281 km de Cusco, paramos em Pukara e fomos ao Museu, com fotos proibidas. Estaõ guardadas várias peças utilizadas por povos que passaram por essa região. Pricipalmente o povo dominador do lugar entre 400 A.C. e 400 D.C. São cerâmicas, instrumentos para tecer e pescar, além de esculturas com menção a animais e rituais de sacrifício humano.

Manuel nos explicou tembém a tradição mantida até hoje. Quando as pessoas constroem as suas casas colocam no teto dois touros de cerâmica para trazer prosperidade, sorte e saúde. São dois pois representam o homem e a mulher. Na saída, chuva. Corremos até a igreja próxima, mais rústica e enorme. Por fora era mais bonita, compondo o cenário com a montanha atrás.


Cheguei no ônibus e descobri que Fernando havia comprado os dois touros para a nossa casa enquanto tirava fotos da igreja. Já na estrada, depois de nossa última parada, o guia nos mostra as plataformas, encobertas pelos espanhóis na época, o local fornecedor de peças para o museu a 300 metros dali.

A viagem foi muito agradável. Nada de serras sinuosas para me fazer passar mal. Antes de chegar ao destino, passamos por Juliaca. Apesar do slogan do governo de que a cidade "será limpa, moderna e segura", vimos pela janela d ônibus uma completa desordem. Trânsito caótico, ruas sem alçamento e casas mal acabadas.


Como a principal atividade econômica é o contrabando, trazendo produtos clandestinamente da Bolívia, a contribuição de impostos para o governo é muito baixa, impedindo a mínima infra-estrutura para o povo. O principal meio de transporte da população de 250 mil habitantes é o triciclo, com homens pedalando a todo momento. São 20 mil em toda a cidade plana.

Quarenta e cinco minutos depois chegamos a Puno. Mas de 300 mil habitantes a 3827 metros de altitude. Já fico com medo por causa da altura. A primeira impressão foi estranha. Ao mesmo tempo que chegávamos à cidade com uma bela vista do Lago Titicaca, Puno lembrava muito Juliaca. E não é para menos, O contrabando também é o forte do lugar, perdendo apenas para o turismo. Ruas mal cuidadas, triciclos motorizados e de tração humana.


No terminal do ônibus, uma moça nos aguardava com uma placa "Hernando Torres" (risos). Fomos de táxi até o Hostal Margarita, já contratado desde Cusco, no mesmo pacote do ônibus. O frio era enorme e Fernando ainda não estava tão bem. Resolvemos descansar e pensar no que fazer amanhã.


Só a água quente no banheiro assim que abrimos o registro foi sensacional. Cobertas bem pesadas, DirecTV. O sono veio fácil depois de 10 horas de viagem.

quinta-feira, janeiro 21

Aguas Calientes


Ainda em Machu Picchu Pueblo precisávamos planejar o dia. Não foi possível. A preguiça tomou conta e dormimos boa parte da manhã debaixo do cobertor muito pensado e cansativo. Resolvemos descer para o restaurante e colocar alguma coisa no estômago.

Eu, ainda com medo de comer, pedi uma "crema de zanhoria" (creme de cenoura) enquanto Fernando ficou com a salada mista e arroz. O nosso prato básico (arroz com feijão), considerado por eles como prato vegetariano, custava 30 soles (uns 25 reais). Muito caro e parecia ser nada parecido com o feijão brasileiro.

Fomos caminhar um pouco, visitar a feira de artesanato logo em frente à estação da Peru Rail. Foram os artesanatos mais caros até então. Mesmo assim, compramos umas pequenas coisas (chaveiro, broche, lembranças para a família). Voltamos para o hotel rapidamente pois Fernando ainda não havia se recuperado. O almoço parace ter caído bem mal.

Nos avisaram que havia reserva para o quarto naquele dia. A mochila ficou no restaurante. Melhor assim. Deixamos no balcão, pagamos uma diária a menos. Uma economia já que pagávamos em Cusco para deixar a mala maior e dormir na noite de hoje com passagem marcada para voltar 21:30.

Decidimos ir às piscinas de águas quentes no fim da rua principal. Alugamos toalhas. A nossa, molhada, ficou com mau cheiro. No frio que pegamos todos esses dias, nada fica seco. Compramos uns chinelos horrorosos também. Entendo porque as havaianas vendem tanto (risos). Dez soles a entrada e um sole o armário com cadeado para guardar as coisas.


Por sorte, mais brasileiros estavam por lá e o Fernando não era o único de sunga. Biquinis são mais comuns. As piscinas estavam cheias. Achei um pouco estranho pois não sei onde esquentam a água das seis piscinas, abastecidas, sem dúvida pelo Aguas Calientes, o rio que corre ao lado que de quente não tem nada.


A primeira piscina tinha água do rio apenas. Muito, muito gelada e cor de cobre. Provavelmente por causa do enxofre que sentíamos o tempo todo. Tomei banho mas é bem desagradável. Parece que a água não é trocada frequentemente. De qualquer forma, as águas quentes nos relaxavam. Nos trocamos para voltar à cidade.

Ainda eram 18:30. Teríamos que esperar muito na estação para pegar otrem a Cusco. Pegamos a mochila no restaurante e resolvemos jantar. Mas foi no Restaurante e Pizzaria Apus. Dividimos um prato de frango com purê (o melhor que já comi na vida!) e arroz. Bem leve e sem comer muito para a altitude não nos pegar de jeito. Para beber, suco de maçã (jugo de manzana). Muito doce e gostoso apesar de sem gelo. Comemos com calma e fomos aguardar na estação.

Descobrimos, dentro do trem, que estávamos em poltronas separadas. Tudo bem, já que a volta seria apenas até Ollantaytambo, metade do caminho, duas horas de viagem. Fernando fez amizade com gêmeos gaúchos que já não me recordo os nomes e combinou dividir com eles uma condução até Cusco.

A viagem backpacker foi como tinha que ser: desconfortável. Mas se eu soubesse o que estava por vir não classificaria dessa forma. Muitas vans e táxis esperam pelos passageiros na estação. Pechinchamos, junto aos gaúchos, o preço do transporte. Conseguimos por 10 soles, metade do preço que estavam cobrando. Em compensação fomos muito apertados. Todos foram em seus lugares respectivos mas, na coluna do meio, meu lugar e doFernando estávamos, fomos em 4 onde só cabiam 3. Foi uma hora e meia com a bunda torta, um lado em cima outro embaixo, e dormente, sem posição para esticar as pernas e deixar braços confortáveis.



Demorou uma eternidade. Nunca foi tão bom andar pelo centro de Cusco, mesmo que deserto. Direto para o albergue, em uma noite bem fria e chuvosa, tomei banho e fui dormir. Amanhã preciso estar de pé bem cedo. Seguiremos de ônibus para Puno.

Obs.: Além do aperto na van, Roberto Carlos cantava em espanhol no rádio!

quarta-feira, janeiro 20

Machu Picchu


Pegamos o táxi 6:30 da manhã. Chegamos a tempo à estação de Poroy, um distrito de Cusco a 30 minutos do centro. Nos deparamos com um grupo de brasileiros. O incrível é que, se não abrir a boca, dificilmente saberão de onde você é, devido às tantas nacionalidades que transitam por essa região.




Embarcamos no trem, na classe mais econômica (backpacker - US$ 48 por pessoa). Por isso, mais difícil de se acomodar nas poltronas em pares de frente umas para as outras. Sentamos na frente de duas senhoras. Não sei de onde mas falavam espanhol. Estavam animadas. Muitas fotos através dos vidros mas muito cochilo também, como todos nós. O trem parte muito cedo.

O balanço enjoa mas também embala o sono. hoje foi o dia de Fernando passar mal. Já saiu de casa com o intestino ruim e o balanço do trem aplicou sobre ele o seu pior efeito. Gatorade (quente) nele. Mas a vista o distraía um pouco. A força do rio sagrado dos incas, Urubamba, combinado ao grande vale de pedras gigantes grudava nossos olhos do lado de fora da janela. Quatro horas de plantações e natureza selvagem sempre às margens do Urubamba.


Chegamos à estação de Aguas Calientes recepcionados pela chuva. Não tão forte mas obastante para comprarmos capas de chuva de plástico com as vendedoras que nos aguardavam. Passamos por um mercado de produtos artesanais e chegamos ao centro da cidade, também conhecida como Machu Picchu Pueblo.


Fomos atrás de um albergue para poder deixar nossas coisas e garantir a estada para a noite. Os primeiros escolhidos já não tinham mais vaga. Encontramos um atrás de um restaurante, o Jairito (25 soles por pessoa), na principal rua do povoado. Um quarto bem simples, com uma cama de casal, um banheiro e sem TV.

Fernando quis deitar um pouco pois a viagem foi terrível para ele. Nossas pernas vieram bem encolhidas e isso fez com que ele ficasse com dor no corpo muito forte, somado ao mal estar do balanço do trem. Acabamos dormindo umas duas horas até resolvermos conhecer Machu Picchu.


A caminhada do povoado até as ruínas sagradas leva 90 minutos. Como Fernando não podia fazer esse esforço, optamos pelo ônibus que leva os turistas até lá (US$7 por pessoa só ida). Algumas curvas leves e outras 92 muito fechadas depois, chegamos à entrada do parque. Havíamos comprado o caro ticket de 126 soles por pessoa ainda no povoado. Fomos abordados por Maria Aparecida, guia local, para que nos mostrasse a cidade Inca por 100 soles. Um pouco caro mas sem as explicações acabamos perdendo muito do encanto do lugar.

Andamos um pouco até chegar às primeiras "terraças", áreas planas que os Incas utilizavam para a agricultura. Em um ponto mais alto fica o cemitério, onde foram encontradas várias múmias em posição fetal. Eles acreditavam que a pessoa renascia em outra vida e precisava estar na posição de nascimento quando morressem.


Apenas a uns 20 passos já víamos a paisagem clásssica de Machu Picchu, com as montanhas que formam um rosto de perfil atrás da cidade intocada pelos espanhóis. Apenas por eles pois Hiran Bingham, norte-americano que redescobriu o lugar em 1911, levou todas as peças encontradas no santuário e proibiu que universidades do Peru tivessem acesso ao material e ao local enquanto fazia seus estudos com especialistas dos EUA. Por causa disso, muitas interpretações de Bingham sobre as construções eram erradas. Uma visão de fora, de quem não conhecia a cultura Inca.


Segundo a nossa guia, essas peças encontradas foram levadas em baús para os EUA, todas misturadas, não sendo possível reconstituir o cenário em que se encontravam. Mas isso não afetou o encanto da cidade de rochas compostas por 15 % de quartzo branco. Acredita-se que a energia do lugar também seja fruto desta preciosidade.

E, apesar de estar infestado de turistas, é impossível não sentir uma enorme paz e acreditar no imenso poder da natureza. Como os Incas cultuavam os elementos naturais, tudo é referenciado a eles. Acreditavam nos três níveis de existência: primeiro a mãe terra (Pachamama), segundo o nível em que as pessoas vivem e terceiro o nível superior, onde as pessoas estarão depois de mortas junto ao Deus Sol. Estes níveis também eram representados por animais: para a terra, a serpente; a vida dos homens, o puma; e o nível superior era simbolizado pelo condor.
As cerimônias de mumificação dos mortos eram feitas em uma pedra em formato de condor, pois o povo acreditava que ele levava as almas para o nível superior. Por causa desses três níveis, o número 3 era considerado sagrado pelo povo Inca. Todas as construções com janelas possuiam três exemplares. Até mesmo o templo do Sol tem três "ventanas".


Interessante observar a diferença entre as construções da nobreza e do povo. Os mais ricos tinham suas moradias feitas em pedras bem polidas e com encaixe perfeito, como era também a casa do imperador, o templo do Sol e outras construções destinadas a rituais sagrados.

A cada caminhada descobríamos mais segredos, víamos mais um ângulo de Machu Picchu e seu entorno, tão lindo quanto o santuário. O rio Urubamba compunha a paisagem de forma silenciosa. Apesar de muito forte, lá se cima era pequeno e frágil comparado à imensidão das montanhas a seu redor. Realmente um lugar para cultuar a natureza.

Os Incas sabiam mesmo retribuir à natureza todos os presentes diários que ela os dava. E eles o utilizavam mesmo. Faziam previsões olhando as estrelas e viam no sol as temporadas de plantio e colheita.

Não paramos de tirar fotos em nenhum momento deste lugar cheio de cultura, transbordando história. Acabamos nosso tour bem próximo ao último horário do ônibus para voltar a Aguas Calientes. O tempo abriu e não pude deixar de voltar ao alto do templo para tirar uma foto com as ruínas ao sol. Subi rápido demais e fiquei sem fôlego. Sem muita coisa no estômago também não podia esperar muito. Mas valeu a pena.



Fernando não subiu e me esperava no ponto do ônibus. Saí de lá querendo voltar para sentir um pouco mais da energia, apreciar a paisagem maravilhosa. Descemos de ônibus. Fernando ainda não se sentia bem e a caminhada duraria até a noite. Chegamos ao povoado e ele estava pior. Compramos água e um biscoito doce sem recheio. Saímos às pressas e já no albergue ele queimava em febre.


Fui duas vezes à farmácia buscar soro e remédio para baixar a febre. No aperto, o espanhol sai (risos). Me assustei com os dois compromidos de 500 mg cada indicados a cada 6 horas. Paracetamol em uma dose muito forte. Antibióticos tem 1g de composição. Mas sachês comprados na farmácia a 1 sole é assustador. Tive medo de Fernando passar mal com a dose. Ainda bem que nada aconteceu e ele foi para o banho depois senti a água quente.

Ele entrou e, alguns minutos depois, a água quente acabou. Chamei o rapaz do albergue. "No hay agua caliente". O cara entrou no banheiro com Fernando todo ensaboado para verificar. Depois de uns 10 minutos, o garoto disse que o andar debaixo nos roubava toda a água quente. Uns 5 minutos depois de Fernando estar no frio e com sabão em tudo, a vizinha deixou ele tomar banho quente porque a agua fria não era fria. Era geladíssima. Consegui aproveitar a nossa sorte de água quente, mesmo com o chuveiro acabando a água e voltando. Fomos dormir.

terça-feira, janeiro 19

Enjôo, Cusco, enjôo

Às 8 horas da manhã ainda estava muito mal. Enjoada e com muita dor de estômago. Muito fraca, só conseguia ficar na cama. Bebi água e Electroral ( um soro de "fresa" (morango) que Fernando encontrou em alguma farmácia local. Um gosto ruim, como qualquer soro cheio de corante). Consegui ter forças para levantar, depois de um banho, mesmo que frio, às 13h. O destino eram as ruínas de Saqsaywaman onde aconteceram as primeiras batalhas entre espanhóis e incas.


Os domindores achavam que o lugar era uma fortaleza para proteger o Império Inca. Para o povo era um lugar sagrado, onde se adorava o sol e a natureza. Um templo para cultuar seus deuses, fazendo oferendas, sacrificando animais.

As pedras em zigue zague representavam os raios que anunciavam o início e o fim da época de chuvas. As construções foram todas feitas com pedras sobre pedras, sem nenhum tipo de artifício para uní-las. Elas eram polidas com água e areia e cortadas perfeitamente em um molde de bambus ou madeira para que se encaixassem às pedras já organizadas.


Eram necessários 150 a 200 homens para carregar essas pedras. A mais pesada tem 33 toneladas e 500 homens trabalharam em seu transporte. Os muros originais, sempre contruídos com 9 a 13 graus de inclinação para suportar desastres naturais, tinham até 12 metros de altura em cada nível. Muitas casas atuais se inspiraram nas construções incas à prova de terremotos. Os muros de Saqsaywaman resistiram aos tremores (sismos, como são chamados aqui) de 1960 e 2007. Este último destruiu boa parte da cidade. Hoje o templo tem apenas 30% de seus muros intactos por causa do ataque dos espanhóis às construções sagradas.

Neste sítio arqueológico está o ponto mais alto de Cusco (3500 metros de altitude). Difícil subir lá, ainda mais sem muita coisa no estômago. Mesmo assim, uma vista linda. Trezentos mil habitantes. No tempo Inca, existiam apenas uma praça em Cusco. Com a chegada dos espanhóis, ela foi dividida em três: Plaza de Armas, Regocijo e Plaza San Francisco. As principais avenidas de Cusco (Del Sol e Tullumayo) formam o corpo de um puma até chegar à cabeça, formada por Saqsaywaman.



Havia muitos sacrifícios de animais no santuário, em particular as lhamas pretas, cor sagrada para os Incas. Descobri a diferença entre uma lhama e uma alpaca. O guia nos explicou que as lhamas tem focinho e pescoço maiores, além de serem mais altas. As alpacasa tem mais pelos na cabeça e as orelhas são mais curtas. Fernando não resistiu e tirou uma foto com a lhama e as mulheres locais. Tudo sempre recompensado.



Subimos até o Cristo, uma estátua branca doada por árabes e palestinos. Descemos a pé até a Plaza de Armas. Compramos luvas no meio do caminho. As pedras eram escorregadias mas o percurso muito bonito com um córrego ao lado nos acompanhando. Precisava ir para o hotel. A dor de barriga começou a apertar.




Antes fomos de táxi a Peru Rail (estação de trem para Machu Picchu e Puno). Estava fechada. Em frente, na agência de viagens All Ways Travel Peru, fechamos um pacote para ir até Puno de ônibus. Muito mais vantajoso, já que faríamos paradas em vários pontos turísticos levando o mesmo tempo que o trem. Além do preço. Passagem, hospedagem e almoço para os dois ($150) saiu mais barato do que um ticket ($220) para o trem.

Demos uma volta no estádio de Cusco, aquele onde os times brasileiros sofrem para jogar. E devem sofrer mesmo. Jogar nessa altitude, faltando ar e com uma pressão na cabeça absurda não deve ser mesmo fácil.


Fomos para o hotel e de lá para a Plaza San Francisco, onde Fernando comeu uma salada mais cedo e adorou o cardápio variado. Pedimos sopas. Um trauma por causa da farra gastronômica de ontem. Eu já não iria aguentar nada mesmo além do "Crema de Pollo" (Creme de frango). Fernando, mais ousado (risos), pediu uma sopa inca, com vegetais e queijo. Como esperado, não consegui comer tudo. Fernando se fartou. Comeu a dele, o resto da minha e ainda pediu uma panqueca de quichua. Ainda me pergunto de quê era a panqueca.



No hotel, tomei banho, desta vez, quente. O chuveiro demora muito para esquentar a água. Dormimos cedo porque o trem para Machu Picchu iria partir às 7:12 da manhã.

segunda-feira, janeiro 18

El soroche

Primeira coisa que vi, já com o dia claro, uma estrada sinuosa com um rio ao lado. Uma paisagem lindíssima, mal registrada pelo vidro do ônibus. Ainda estávamos subindo. Parecia que íamos chegar ao céu, com uma criança aos berros, um celular que não deixava o passageiro descansar e dois estrangeiros irritantes que insistiam em bater em nossos bancos.
O café da manhã veio junto com o enjôo. Bolinho de chocolate com passas, pão com queijo e presunto, um horrível iogurte (era muito ruim mesmo porque sou fã de iogurte). Ainda faltavam quatro horas de viagem, a subida não terminava e o enjôo muito mesnos. Já não via a hora de chegar.


A última hora de viagem foi de descida mas não menos lenta por causa das curvas. Em frente a rodoviária de Cusco, um idiota deixou o carro impedindo a passagem do ônibus. Houve uma comoção de pessoas em volta que entraram pela mala do carro e o tiraram da frente. Incrível é que o dono nem fará ideia do que aconteceu. O ônibus entrou e colocaram o carro de volta.

Comecei a perceber uma dor de cabeça muito forte. Imaginei ser apenas da noite mal dormida e das curvas das 21 horas de viagem (12 só subindo). Um cara, ainda na rodoviária, nos indicou um hotel com um preço bom. Pegamos um táxi. Queria só tomar um banho para tirar o sal do mar de ontem.

A recepcionista avisou que era preciso ficar cinco minutos com o chuveiro aberto para que a água esquentasse. Achei que o máximo que a água esquentava era do morno para o frio. Me enganei. Mesmo assim, só Fernando tomou banho quente depois de uns 20 minutos de chuveiro aberto. Fui apressada e me ferrei.


Fomos conhecer a cidade. Não tive tantas primeiras impressões. A dor de cabeça e o cançaso eram muito fortes. Mesmo depois do chá de coca no hotel. Compramos tudo de coca: bala e cerveja (esta, horrível por sinal. Amarga demais). E a dor não passava. Mesmo assim, compramos nossa passagem de trem para Machu Picchu na quarta (20/01) e passeamos pelas dezenas de lojas e mercados de produtos artesanais. São muitos mas tem que saber pechinchar. Fernando aprendeu.


Fomos almoçar. Frango com champignon para mim e uma carne com batatas fritas para ele. Tudo muito gostoso. O dia foi de andar pela cidade, tirar fotos dos prédios históricos, aqueles que os espanhóis aproveitaram as bases de pedras incas para fazer por cima suas igrejas e casas coloniais.



E a pressão na cabeça não passava. Fomos às compras. Muitas cores nos seduzindo. Comprei uma flauta. Acho que agora tenho uma coleção mesmo sem saber tocar (risos). O dia estava terminando quando resolvemos jantar em uma pizzaria. Pizza família com carne de Alpaca, uma parente próxima da lhama. Muito queijo e a carne com um gosto forte, marcante. Comi demais e Fernando ainda pediu uma panqueca de banana com mel.

Hora de ir para o hotel descansar. Mas, para mim, a noite estava apenas começando. Me senti muito mal, com o estômago embrulhado e muito enjôo. Pensei logo nos efeitos da altitude, "el soroche", mas descobri logo depois que a comida havia me feito muito mal. Não sei qual foi ou se a mistura delas somada a altitude, mas a pizza foi toda embora pelo mesmo lugar que entrou. Depois desse momento desagradável, fiquei mais aliviada e consegui dormir.

domingo, janeiro 17

Vamos a la playa

Começamos o dia bem cedo. Às 8h da manhã estávamos de pé. Resolvi passar as fotos da câmera para o pen drive para termos mais espaço. O computador, com vaga lembrança de 256mb de memória, demorou uns 40 minutos para transportar todas as fotos.

Fui para o desayuno (café da manhã). Ovo, pão, leite, geléia, manteiga. Fernando tomou na minha frente, cansado de esperar o computador lerdo. Enquanto me acompanhava na minha refeição, começamos a ouvir música do lado de fora do albergue (três estrelas, ainda não havia lembrado esse fato - risos).

A bagunça era uma espécie de folia de reis local em comemoração ao aniversário de fundação de Lima (475 anos). Pessoas de várias partes do país se encontram na capital, cultuando suas divindades, suas representações locais. Demos muita sorte. Só acontece um dia, uma vez por ano. E, em 2010, estávamos em Lima.

Pegamos um táxi com o preço médio do que nos cobraram ontem até Miraflores (15 soles). Acho barato pois a distância é muito grande, depois de passar por uma avenida gigante. Nosso passeio desta vez foi ver a praia. A idiota nem levou biquini. Por consequencia, ficou com vontade de entrar na água. Conclusão: gastei 18 soles em um biquini ridículo e fui a sensação da praia. A maioria toma banho de short mas vi muitas meninas de biquini também. Acho que chamei atenção por ser diferente mesmo.

Dane-se. Tomei banho no Pacífico. Gelado, cheio de pedras e bancos de areia no fundo. Na água, a maioria era surfista. Depois de topar com o dedo em uma pedra e abrir um buraquinho (risos), resolvi sair. Mar chato. Onde pisa tem alguma coisa. Tá. Mas é o Pacífico. Tinha que fazer isso.

Fomos almoçar em um restaurante que avisava ser à prova de terremotos. Então tá. Muitas construções têm esse adesivo. Um pouco desagradável pensar que a terra vai tremer a qualquer momento. Fui ao banheiro me secar enquanto Fernando tramava seu plano. Pediu um "ceviche", um preparado de peixe com molho picante. Confesso que não dá para perceber que é peixe por causa do molho muito forte. Fernando achou uma delícia. Eu, nem tanto. Mas a sobremesa era de matar. Panquecas de pêssego deliciosas com doce de leite.

Começamos a correr contra o tempo. O ônibus para Cusco era 14h. Uma confusão no albergue com um troco que não nos deram fez com que perdêssemos 10 minutos preciosos. Pegamos um táxi e todos os sinais fechados. Mas chegamos a tempo. Ônibus confortável. Cobertor e TV. Não consegui me prender a nenhum filme. A estrada me interessava mais.

Muitos desertos com casinhas no meio do nada. Plantações de uva, milho e outras coisas não identificáveis. Barracas na estrada vendiam uma fruta-legume-sei lá verde e grande como uma jaca. O verde mais intenso e a casca lisa. Não me pergunte o que tem por dentro.

A paisagem foi o que nos manteve acordados. O jantar veio no início da noite. Carne, arroz, batatas. Uma bolinha de queijo para acompanhar. Torta de maçã como sobremesa e água. A estrada começou a ficar sinuosa, com precipícios que não possibilitava enxergar nada. Estávamos na frente do ônibus, antes do primeiro eixo no segundo andar. Desagradável ver a estrada acabar.

Melhor não olhar e ver "Homem Aranha 3" em espanhol com legendas em inglês. No ônibus, aquele dorme e acorda sem fim. As curvas nunca paravam em uma subida interminável. Em algum momento, vencida pelo cansaço e pela náusea, dormi.